Salvador — Em um discurso de forte conteúdo político e estratégico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou, neste sábado, a militância do Partido dos Trabalhadores (PT) e das forças progressistas a se prepararem para uma “guerra” no processo eleitoral de 2026. A declaração foi feita durante a celebração dos 46 anos do PT, em Salvador, evento que funcionou como uma demonstração de força partidária e de mobilização antecipada para a disputa que se aproxima.
Lula afirmou que a próxima eleição será marcada por embates duros, sobretudo nas redes sociais, e alertou para o que classificou como uma atuação agressiva e desleal da extrema direita. Segundo o presidente, não haverá espaço para uma postura defensiva. “Essa eleição vai ser uma guerra. Precisamos escrachar cada mentira contada por eles. Não tem mais ‘Lulinha paz e amor’”, disse, sob aplausos da militância.
Aos 80 anos, Lula declarou-se disposto e motivado para disputar a reeleição, afirmando viver seu melhor momento físico, mental e político. Demonstrou confiança no resultado do pleito e projetou mais quatro anos de governo ao lado dos aliados. O presidente, no entanto, fez questão de frisar que os resultados das políticas sociais, embora relevantes, não serão suficientes para garantir a vitória. Para ele, o fator decisivo será a capacidade de construir e disputar uma narrativa política sólida e mobilizadora.
“O que vai ganhar essa eleição é a narrativa”, afirmou Lula, ao defender que o PT apresente um novo projeto de país, capaz de dialogar com diferentes gerações e renovar esperanças. O presidente disse não querer ser lembrado apenas como o líder do Bolsa Família, mas como alguém que ajudou a formular uma visão mais ampla de desenvolvimento, democracia e inclusão social para o Brasil.
Em tom de alerta, Lula afirmou que a eleição de 2026 extrapola a disputa presidencial e colocará em jogo a própria democracia brasileira. Segundo ele, o país terá de escolher entre a continuidade de um projeto democrático ou a submissão a uma agenda autoritária, que ameaça instituições e direitos.
O presidente também tratou de estratégia eleitoral e defendeu a construção de alianças amplas. Reconheceu que o PT não tem força isolada em todos os estados e que será necessário compor para vencer. A orientação foi direcionada ao presidente nacional do partido, Edinho Silva, a quem Lula recomendou articulações políticas sem abdicar de princípios. “Acordo político é tática para governar”, resumiu.
Lula fez questão de elogiar o vice-presidente Geraldo Alckmin, destacando seu papel na construção da frente democrática. Alckmin, por sua vez, exaltou a trajetória do PT como um partido que “nasceu do povo” e mantém identidade com a liberdade e a justiça social.
Em um dos momentos mais contundentes do discurso, Lula fez duras críticas à mercantilização da política e ao que chamou de degradação do sistema eleitoral brasileiro, citando o orçamento secreto como símbolo desse processo. Também cobrou autocrítica interna do PT, lembrando a perda de espaço político em regiões onde o partido já foi hegemônico, como a Grande São Paulo. Para ele, erros precisam ser reconhecidos e corrigidos, sob pena de enfraquecer a legenda.
O presidente defendeu ainda uma reconexão do partido com as periferias e um diálogo direto com o eleitorado evangélico, sem intermediários. Segundo Lula, a campanha exigirá presença territorial, escuta ativa e mobilização de base, retomando práticas históricas que marcaram a origem do PT.
A celebração em Salvador reuniu dirigentes partidários, parlamentares e lideranças de partidos aliados, como PSB, PCdoB e PDT, além de representantes do campo democrático. O evento encerrou-se em clima festivo, mas com uma mensagem clara: o PT entra em um período de reflexão interna e, ao mesmo tempo, de preparação intensa para uma disputa eleitoral que, nas palavras do presidente, será decisiva para os rumos do Brasil.